2.27.2010

Mãe, tivemos todos 18. E agora?

Soube há dias que, na minha Faculdade de licenciatura e mestrado, numa certa cadeira e numa pequena sub-turma, as notas finais tinham oscilado entre o 14 e o 18.
No meu tempo de estudante, os professores sempre trataram as notas dos alunos como se fossem notas de conto deles. Guardavam-nas bem guardadinhas, num cofre imaginário, de onde nunca saíam.
Há muitos anos, numa turma de 200, fui o segundo aluno da licenciatura. Tive média de 15. O Raul, o meu tranquilo benchmark e o melhor do curso, teve 16.
Fiquei como assistente. Como fiel guardião do templo da bitola estreita, aplicava aos meus alunos a medicina que sempre tinha provado. O limite máximo da minha escala quedava-se no 16, e era reservado para os raros Raul que me apareciam. E os meus alunos que ficavam como assistentes iam fazendo o mesmo. A injustiça ia-se perpetuando, pela mão de cada jovem geração de docentes a quem talvez faltasse em bom senso e experiência de vida o que sobrava em conhecimentos técnicos. Deus nos livre de meretriz velha e professor novo, dizia, trocista, um velho catedrático.
Esta correia de transmissão da avareza foi sendo paulatinamente quebrada. Os alunos, a partir de meados dos anos 90, tornaram-se mais conscientes da sua condição e foram ganhando força. A mentalidade masoquista do “quanto mais bera, melhor é o nosso professor, melhor é o nosso ensino” da minha geração foi vencida. Os alunos começaram a questionar os métodos reinantes. Começaram a fazer ranking de professores. Pasme-se, passaram a avaliá-los.
Na altura em que troquei a faculdade pelo mundo real, já a popularidade e a imagem estavam no topo das preocupações da maioria dos meus colegas assistentes. E notas macacas e pautas pejadas de negativas não são boas para a popularidade. E por linhas tortas foi-se fazendo justiça.
A concorrência de recém-criadas universidades nacionais e a comparação com os padrões internacionais contribuíram para a mudança. Professores tio Patinhas em universidades provincianas não são bom argumento.
E pronto. Chegámos às classificações dos dias de hoje. Não sei se o ensino hoje é pior ou melhor. Mas sei que é justo que a escala virtual de classificações não divirja da escala real.
Quem não beneficiou no passado dessa convergência pode torcer-se e dizer que não há justiça inter-temporal. Mas não terá razão. As classificações pretéritas, por muito amputadas que fossem, abriram nessa altura portas que hoje estão bem trancadas. Essas gerações podem ter tido notas mais baixas, mas já estão “dentro”. As mais novas têm as notas mais altas, mas não encontram sequer a porta.E isso é um problema sério.
não frequento twitter [onde sei que este ruído de fundo é muito mais persistente e constante] mas no facebook é preciso ler com atenção os pedidos para não confundir entre requisições de pregos para o estábulo, de recolha de roupa para a madeira ou de colheitas de sangue para doação de medula a crianças com leucemia.
o tom é o mesmo e em geral partem das mesmas pessoas, as pessoas do peditório virtual.
tudo isto existe, tudo isto é triste e nada disto é fado. mas ao fim de não sei quantos meses a levar com este filme o cansaço é grande e a indiferença absoluta.

há muito a aprender com as instituições que vivem da bondade de estranhos: em geral os peditórios não ultrapassam duas ocasiões anuais e são a maior fonte de rendimento da instituição.

2.25.2010

but i'm here now

deixo-vos esta frase retirada de um magnífico filme que marcou toda uma geração [ou até mesmo duas] e transmite o fundamento mais precioso que se pode apreender em toda a vida: que mesmo que a pessoa seja uma prostituta que vive numa casa pavorosa a meias com outra prostituta que se droga, ainda assim as probabilidades de encontrar um milionário charmoso e sem taras que se apaixona perdidamente por nós é grande.
isto para retirar a frase que deveria no fundo reger toda a nossa vida: but i'm here now.

porque amanhã já ninguém garante.

2.24.2010

it's raining again



óptimo pretexto para usar um trench coat. e óculos escuros [porque entretanto também faz sol].

[isto sou eu a mentalizar-me para não mandar a puta da chuvinha para um sítio bastante especial, do pouco farta que estou disto. chego a esticar o cabelo três vezes ao dia e ainda assim está um caos. não há cabelo que aguente esta humidade. nem pachorra].

2.23.2010

Os velhos partem no Inverno, os novos todo o ano

A Lena linda viajou há dias, de forma para mim inesperada. A Lena dizia que eu era “demais”. Era bondade demais dela.
Celan dizia que a morte é uma flor que só nasce uma vez. Pois é.
Mas não devia nascer fora de tempo. No caso da Lena não devia. A Lena ainda era Verão. Um Verão laranja, laranja, quente, quente. Adeus, Lena.

my life

a minha vida é mais interessante do que a vossa. até porque aposto que nunca abriram a caixa de email pela manhã para ler uma mensagem de um amigo que diz "fiz sexo".

2.18.2010

the greatest

um dia [uma noite] o meu mundo desabou sem eu saber porquê nem como. passei metade da noite a chorar, a outra metade a dançar e aos pulos e ainda hoje [foi há umas semanas] não entendo porquê [nem como].
um amigo emprestou-me a cama para dormir, outro levou-me ao carro e na manhã [que era tarde] seguinte, lembro-me de ir a conduzir para casa - a seguir ao meu mundo desabar [porquê?] - a sentir-me muito feliz. feliz entre as gotas de chuva. estava sol na rua. percebi que era feliz como os sobreviventes, do tipo de felicidade nada é tão grave-entre as gotas de chuva. desde esse dia tenho na cabeça [em repeat infinito] essa música da cat power que dá título ao blog - não por me sentir maior nem melhor que ninguém - mas nem por isso tenho menos medo de desabar.

2.17.2010

mardi gras

elas não se cansam e não trocam os pés e nós cansamos e trocamos e elas estão de shortinhos e nós estamos muito pindéricas e elas têm bundas, muitas bundas, montanhas de bundas, onde temos que espetar os nossos dedinhos portugueses para ver se são de verdade

todos os dias eu quero escrever como a Mónica [e nunca consegui].
há coisas que me irritam em certos dias e coisas que me irritam todos os dias.
eu queria tanto ser uma pessoa zen, sempre cool mesmo quando lhe apitam num semáforo, e não dá.

não adoro fazer compras [nem mesmo de sapatos, o que é péssimo, acreditem]. mas o que mais me transtorna - mais do que a roupa em montes caóticos e nunca haver o meu número em lado nenhum - são as mulheres que vão às compras com os maridos/namorados/amantes/whatever e deixam que eles opinem sobre a roupa e mesmo - a heresia - entrem no provador.

2.15.2010

one more step



acho a Nigella o máximo e quase quase fico com vontade de cozinhar quando vejo o programa dela.

fame

há duas maneiras de alcançar a fama: fazendo uma coisa muito boa [o Edison, por exemplo] ou fazendo uma coisa muito má [a Elsa Raposo, por exemplo]. eu, que amo o meu anonimato quase tanto como o meu cabelo, não hei-de entender nunca quem se espalha ao comprido para se tornar conhecido de desconhecidos.

no post

estou com um problema logístico com os posts que não parece ter fim. quando tenho alguma coisa a escrever, não tenho interface. quando tenho interface não tenho nada a dizer [como, obviamente, neste momento].

2.12.2010

cargo, anyone?

preciso de um portfolio digital em formato de site. há este CMS tão jeitoso. pena que eu não saiba utilizá-lo.

2.10.2010

♥ is

- teve saudades da mãe? a mãe hoje teve tantas saudades.
- nem me lembrei da mãe, estive com a Madalena todo o dia.

[agora a mãe está com ciumes mas a fingir que não].

2.09.2010

whatever works



um filme divertido e com [muito] bons actores. como este Henry Cavill.

2.08.2010

Eu tenh'um pressentimento

Eu tenh'um pressentimento
Qu'esta vai ser uma noite boa
Qu'esta vai ser uma boa, boa noite.

Um pressentimento, woohoo, qu'esta vai ser uma noite boa
Qu'esta vai ser uma noite boa
Qu'esta vai ser uma boa, boa noite.

Esta é a noite, vamos viver
O meu dinheirinho já cá canta
bora desbundá-lo.
Bora sair e fazê-lo como Oh meu Deus!

Eis uma tradução livre da musiqueta inane que a selecção de futebol escolheu para mascote musical.
Verdade e consequência, é também a música que as agências de publicidade vão escolher para nos sangrar os ouvidos até à hora do (oxalá não!) espalhanço no Mundial da África do Sul.
Não esperava que Carlos Queiroz optasse pelos belos versos "I am the master of my fate, I am the captain of my soul" que Clint Eastwood associa à equipa de rugby da mesmíssima África do Sul.
Mas espero sinceramente que a selecção não exagere no smash it like Oh my God! cantado na musiqueta. Guardem as perninhas para os jogos. E boa noite.




everything



the museum of everything, para quem tem a sorte de estar em Londres até dia 14 de Fevereiro.

why

tendo lido as perguntas do questionário abaixo [só não respondi a duas, que vinham fora de contexto] fiquei sem saber muito bem porque tanta gente tem dúvidas sobre a minha orientação sexual. se me quiserem esclarecer, agradeço [imenso].

let go

desistir de tudo o que se quis, trocar todos os desejos e sonhos por outros, assumir perdas e seguir em frente deveria ser ensinado na escola ou mesmo desde a nascença. não o sendo, a vida se encarregará de o fazer. o trigo e o joio.
a emissão prossegue, já sem os dramas do costume. estou demasiado crescidinha para birras, infelizmente.

2.05.2010

valentine's



daqui

chamem-me parolinha mas sempre tive o desejo secreto de receber um lenço destes. não necessariamente no dia 14 de fevereiro. acho o máximo, a sério.

2.03.2010

ask me

aqui podem perguntar o que quiserem sobre mim.

2.02.2010

the truth is out there



daqui

às vezes penso que tudo seria mais fácil e que seríamos pessoas mais felizes se soubéssemos dizer as coisas como se tivéssemos todos 5 anos és linda essa camisola é feia cheiras bem gosto de ti foste parva dá-me um beijo larga-me és gordo tu não sabes jogar futebol dá-me colo estás-te a armar já não gosto de ti.
mas vendo bem as coisas acho que não estamos mesmo preparados para o embate.

2.01.2010

private joke

cada vez que digo a alguém que gosto de picante, a minha filha torce o nariz e diz "a mãe tá-se mesmo a armar". gosto tanto disto que rimos as duas e já é piada entre nós uma dizer uma coisa qualquer [como "queres um iogurte?"] e a outra responder "isso é mesmo para se armar". com ele fazemos o mesmo mas para "essa ofendeu-me" [veste o casaco - essa ofendeu-me].
isto é lá em casa mas sonho mesmo é com o dia em que possa dizê-lo à boca grande e quando me apeteça, como as crianças "estás-te mesmo a armar". e são tantas vezes.

i'm not perfect

é possível que me tenha enganado. que durante os três anos que vivi no Porto e em que tudo era mau e tudo me irritava, os sentidos das ruas, o trânsito, a ruralidade, o sotaque, o provincianismo, a obsessão pela vida dos outros, que todas estas coisas fizessem parte do encanto do Porto e me tenham passado ao lado. é possível que, agora que já não vivo lá, não me limitasse a fazer o trajecto boavista-traseiras de serralves-foz-matosinhos, por desprezar tudo o resto.
é possível. de resto, tudo é possível.

pessoas com extremo bom gosto